segunda-feira, 19 de julho de 2010

Nove meses


Há nove meses atrás tive uma das piores sensações de toda a minha vida. Foi um susto daqueles que jamais se esquece, ainda que outros sustos venham, ou mesmo que alegrias surjam.
Minha prima, queridíssima, daquelas pessoas nas quais não se encontra defeito, se aproximou, como nunca eu tinha presenciado, da morte.
Foi durante o período da terrível gripe A que ela passou por algo que primeiro diagnosticaram como sendo um resfriado. Depois de três hospitais diferentes, desmaios, medicamentos de toda espécie, a notícia cortante chegou: era uma pneumonia, gravíssima.
O processo foi muito rápido: do leito do hospital para o Centro de Terapia Intensiva; de lá para o coma induzido, tantos dias, muitos dias; e quando nos pareceu que era impossível piorar, tivemos o encontro com o que chamamos, hoje, de a segunda-feira negra.
A médica que a salvaria, que nos salvaria, com lágrimas nos olhos, impotente, como um de nós, pediu que nos preparássemos, pois aquele poderia ser seu último dia. Voltamos para casa sem acreditar no que acontecia, em silêncio. Talvez porque não existissem palavras, talvez porque elas estivessem morrendo com a Josi.
A noite daquela segunda-feira pareceu nunca terminar. O sol demorou a nascer, os carros insistiam em não querer trafegar. Em cada casa, um pedaço da família, com os ouvidos colados aos telefones, esperando pelo pior, padeceu um pouco.
Mas o dia precisou amanhecer. E, usando das palavras dos especialistas, o dia seguinte configurou-se como a terça-feira do milagre.
Aqueles mesmos pulmões, antes em processo de falecimento, sem mais saber trabalhar sozinhos, experimentaram, de repente, um sopro de vida. Os pais, sogros, tios, primos, o marido, todos respiraram com ela, tomados pela emoção, honrados pela fé.
E o sopro de vida na vida dela permaneceu e se estende até os dias atuais.
O mesmo telefone tocou hoje, nove meses depois de ela ter sido gerada novamente, anunciando que a vida continua acontecendo maravilhosamente: Minha prima será mãe.
O que sinto agora, imersa em emoção e felicidade extremas, é que o que parece um dia negro, pode tornar-se, inesquecível e eternamente, milagre. Talvez custe um pouco de sofrimento, ou quem sabe venha abarrotado de angústias, mas nunca pode ser considerado sem saída.

3 comentários:

  1. A história que narrou é uma bela lição de vida. Ainda bem!

    Bjs

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  2. teu teto dá mais abrigo à poesia...
    bj

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  3. Deia...
    Do jeito que vc conta, até o nosso drama ficou poético. Adorei.

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