quinta-feira, 28 de janeiro de 2010


De tanto pensar e achar que já não me reconheço mais, encontrei uma ponte entre a Cecília Meireles e o Arnaldo Antunes... Acho que estou no meio dela, parada, bem no centro, já que não tenho mãos frias ao mesmo tempo em que não tenho barba. rs.
Arnaldo, você musicou Cecília. Amei!


Retrato

Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Não vou me adaptar

Arnaldo Antunes

[...]
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
Mas é que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar
Não vou!
Me adaptar!...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Viajei nesse fim de semana, por isso não postei nada... Pra começar, ou melhor, recomeçar, posto Vivina, com quem falei anteontem ao telefone e me deu uma saudadiinha... Mulheres, amem!

A COISA MELHOR DO MUNDO
Vivina de Assis Viana


Eu tenho 18 anos e faço planos. Como sou mulher, faço planos de mulher: estudar (hoje as mulheres estudam), trabalhar (hoje as mulheres são independentes), casar (hoje, como sempre, as mulheres se casam). Como tenho 18 anos, o mundo está na minha frente e é nele que eu mergulho todos os dias: faculdade pela manhã, trabalho à tarde, namoro à noite. Tudo muito certinho, como deve ser. Tudo como convém aos anos 50. Tenho 18 anos e estou mergulhando no mundo; todas as manhãs, estudando, todas as tardes, trabalhando, todas as noites, namorando. Sou muito feliz, como convém ser. Inteligente na faculdade, pontual no trabalho, ajustada no namoro. Tudo muito certinho, tão certinho que chega a me assustar. Há pessoas, como eu, com 18 anos, que tentam mergulhar na vida e não conseguem. Se o trabalho vai bem, o namoro vai mal. Eu não. Eu sou muito feliz. Os professores gostam de mim, as pessoas com quem eu trabalho me admiram, meu namorado me adora. Ele chega a dizer que eu sou perfeita, do jeito que ele queria e precisava, e procurava. Eu também acho que ele é perfeito, do jeito que eu quero, preciso e não procuro mais. Se marcamos um encontro, chega antes da hora e me espera sorrindo. Aos domingos, almoçamos juntos, na cidade. Ficamos muito tempo de mãos dadas, cantando músicas do João Gilberto, ou calados, sorrindo. Admiramos a inteligência um do outro. Colocamo-nos apelidos carinhosos. Escrevemos e desenhamos um pro outro, escritos e desenhos cujo significado ninguém entende, além de nós. Prometemos casamento um pro outro. À noite, quando vou dormir, não ouço os barulhos que vêm da rua: o som que me acompanha é o da sua voz. E eu fico pensando que a coisa melhor do mundo é ter 18 anos e mergulhar na vida e sonhar com o futuro a dois: uma sala na penumbra, um disco do João Gilberto, mãos dadas, palavras carinhosas, as mesmas de sempre, gestos carinhosos, os mesmos de sempre, silêncio, sorrisos, felicidade.

Tenho 30 anos e faço planos de mulher. A faculdade acabou (as mulheres hoje continuam estudando), o trabalho continua (as mulheres hoje tentam ser independentes), o casamento aconteceu (as mulheres ainda se casam). Os anos passaram e tudo aconteceu como estava previsto. O mundo não está, mais, à minha frente: eu estou na frente dele. Não mergulho mais nele, não é preciso. Estou constantemente lá dentro, bem no fundo, como convém a quem tem 30 anos. Quem disse que não sou feliz? Claro que sou. Terminei meu curso, trabalho cada vez melhor, meu marido é aquele namorado que eu queria, e precisava, e procurava. Se marcamos um encontro, ele não chega, mais, antes da hora, mas não tem culpa. O trânsito hoje é muito difícil, o nível do brasileiro melhorou, todo mundo tem carro. Também não almoçamos mais na cidade aos domingos, mas não temos culpa. O dinheiro anda curto, os filhos precisam de nós, aparecem visitas. As músicas do João Gilberto andam raras. Não temos culpa: há tantos discos novos, as coisas agora duram tão pouco, é preciso mudar sempre, todas as semanas, todos os dias. Ninguém tem mais tempo pra lembrar. Continuo admirando a inteligência dele. Sei que outras pessoas admiram junto comigo. Ele deve continuar me admirando. Não temos mais apelidos, mas não temos culpa: agora somos pai e mãe. Afinal, é assim que todos os filhos chamam os pais. Escrevemos um pro outro, mas não desenhamos mais: desenhar é difícil, gasta tempo. As vezes eu me pergunto se entendemos tudo o que escrevemos, se os escritos têm significado, mesmo para nós. Não há mais casamento pra prometer. Estamos casados desde os anos 50, quando tínhamos 18 anos e resolvemos mergulhar no mundo. À noite, quando vou dormir, os barulhos da rua se misturam com os da casa: dentes que são escovados, Caetano Veloso rodando na vitrola, tosse no quarto do filho mais velho. E eu fico pensando que a coisa melhor do mundo é deitar um corpo cansado e ouvir uma respiração também cansada, ao lado. A coisa melhor do mundo é descansar por ter mergulhado nele, um dia. A coisa melhor do mundo é descansar do mundo.

Tenho 35 anos e não faço planos de espécie alguma. As mulheres ainda estudam, mas desistiram de ser independentes, e já não se casam mais. Não precisam mais sonhar com o casamento: têm os homens na hora que querem, mesmo os de outras mulheres. Não sei se estou dentro, fora ou na frente do mundo. É que nem sei onde está o mundo, como convém a uma mulher de 35 anos. Eu disse que não sou feliz? Claro que sou. Sou formada, não preciso mais trabalhar, a pessoa que eu queria e procurava e precisava está comigo desde que tínhamos 18 anos e resolvemos mergulhar no mundo. Não marcamos mais encontros. Ele tem outros, mais importantes, com gente mais jovem, com quem fala de sua vida, seus gostos, suas manias, seus hábitos, nossos filhos. Principalmente nossos filhos. É assim que deve ser. Os almoços aos domingos são raros até em casa: esperam por ele no clube, ou na cidade, agora que dinheiro não é mais problema. João Gilberto foi definitivamente substituído, sem que nem notássemos. Há muitos outros no lugar dele. Não sei os nomes. Não é mais preciso admirar inteligências. A vida, mais inteligente que nós, colocou cada um no seu lugar. Apelidos? Se nem nomes temos mais. O nome dele agora é o sobrenome, público; famoso, citado. E procurado pelos mais jovens, principalmente mulheres, que já não se casam mais, todas dos anos 70. Escrever o quê? Tudo já foi escrito. Não vejo mais canetas pela casa. E ele mal dá conta de ler tudo que lhe escrevem, suas gavetas se enchem de recados, fotografias, recados, fotografias, recados. Todos de pessoas dos anos 70. A noite, quando vou dormir, não ouço os barulhos da casa. A vida grita lá fora, nas buzinas, chamando, chamando, chamando. E eu fico pensando que não há coisas melhores no mundo. Nem coisas boas há.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010


Durante os últimos dias andei tendo bastante tempo pra ler revista e livro. Praia é linda, mas depois de vinte minutos olhando pro mar o olho começa a pedir outra coisa.

Lembro-me que na praia, ano passado, li A Cabana, do William Young. Geralmente fico com um pé atrás em ler ou em falar que estou lendo um best-seller. Em faculdade a gente apende que tem que ser exótico e ler escritor russo, irlandês, do século XVII, ou escritor que passou a vida escondido em um buraco e publicou sob pseudônimo... ahh que chique!
Agora, vai falar que leu best-seller! O quêêê? Meu filho, a unanimidade é burra, by Nelson Rodrigues! Vai ler Dostoyévsky!

Massss, a verdade é que A Cabana é intrigante. Há quem seja cristão e se afeiçoe, há quem seja cético e encare como uma história da carochinha, chata, legal, não interessa... mas o que eu gostei mesmo foi do fato do Deus de William Young ser uma mulher.
Sim! Ela é negra, maravilhosamente bem-humorada e adora cozinhar.
Amo como o livro forçou nossa imaginação ao fazer sumir nossa idéia de um Deus a la Gandalf, grisalho, barbudo e de bata branca.
Deus em A Cabana é o máximo! Ou seria a máxima? [rs]

Ela resolve os problemas da casa toda, cozinha, orienta, e ainda por cima é onipotente e onipresente. Igual ao comercial da Malu Mader, que diz que a Mabe é a marca da multimulher. MULTIMULHER? Pera aí! O que seria "multimulher"? Pra mim se é mulher, já é multi, já cuida da casa, trabalha fora, cria filho... Não precisa de terminologia, que ofensa! Quem vê pensa....
Ah, e quem leu A Cabana? Ooolha, é best-seller!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


Não acho que alguém tenha interesse em me conhecer melhor, coisa que geralmente blogueiro pensa: Vou colocar umas fotos, publicar o que comi hoje, e vai dar maior ibope. Lie! Não acho, fiquem tranquilos.

Acontece que tem uma coisa na vida que amo fazer e que sinto que tem muito a ver com a criação desse espaço de discussões que a rede, felizmente, possibilita.

Em 2005 comecei a estudar a obra de uma escritora pela qual sou declaradamente apaixonada. Vivina de Assis Viana. Da iniciação científica ao doutorado, sou Vivina, e sinto que décadas de pesquisa não dariam conta de conhecer a grandeza do trabalho dessa mineira. Quem conhece mineiro sabe do jeito hospitaleiro, e, acredite ou não, a Vivina te faz se sentir em casa a cada linha que você lê. É maravilhosa...

Acho importante falar que a Vivina vai merecer muitos posts meus. Além de ela ser minha grande amiga hoje, ter colaborado ativamente para meu trabalho, ter sido quase família na minha defesa em Londrina, sinto que as palavras que ela escreve com tanto carinho só vão enriquecer meu humilde espacinho chamado de blog.


Aí vai uma crônica escrita por ela em 28 de outubro de 1990. Uma de minhas preferidas!


Você não sabia?

Meu filho mais novo gosta de costurar. Se chega perto de mim com a calça do uniforme na mão, sei que não vai me mostrar onde ela está rasgada, mas onde esteve.
Há poucos dias, entretanto, buscou socorro.
– Mãe, só você costurando pra mim. Rasgou demais no futebol da escola, olha aí.
Assentado ao meu lado, atento às idas e vindas da agulha, reconhece:
– Puxa, mãe, você costura muito melhor que eu!
– É que eu faço isso há muito tempo, filho. Estou mais treinada que você...
– Quem que te ensinou?
– Minha mãe.
– Não foi sua avó?
– Não, não foi. Sabe que nunca vi minha avó costurando?
– Você devia ser costureira, mãe. Já pensou quantas calças rasgadas você consertava num dia só? Garanto que ia ganhar muito mais dinheiro do que sendo escritora.
– Isso eu também garanto, filho.
– E tem outra coisa, mãe. Você não ficava famosa, nem morria cedo.
– De onde você tirou isso, filho?
– Você não vê na televisão, mãe? Todo dia morre gente famosa.
– As outras pessoas também morrem, filho.
– Morrem nada, mãe. Ficam aí, vivendo toda vida. Puxa, mãe, você não sabia disso?


Vivina de Assis Viana, 1990.







Depois de um semestre discutindo muito sobre escrita de mulher, mulher que escreve, penso que devo chamar minha turma de debate pra brindar o blog A Room of Our own. Portanto, amigAS e amigos, não pretendo generalizá-los não marcando o gênero aqui, rs, convido-os para uma Aguinha Woman, sim, aquela que costumávamos tomar nas aulas de Literatura de Mulheres. Tim Tim!

Penso que todo mundo tem um livro que fala de si, por si, para si... O meu tem nome desde 2003, no meu primeiro ano da faculdade, em Londrina. Lembro-me que perdi um dia de aula porque não consegui ir pra faculdade e deixar Lolita e Humbert resolverem seus problemas sem mim. Meu livro do heart é Lolita, do Vladimir Nabokov. Narrado pela personagem Humbert, o livro conta a história de um affair transgressor, já que o cara é um quarentão e Lolita uma criança entrando na puberdade.
Agora... meu post é pra falar da Pia Pera, uma escritora italiana que resolve brincar com o livro de Nabokov e narrar a saga Lolita e Humbert do ponto de vista da menina... No mínimo curioso, em especial pra quem lê Lolita achando que o caso é de pedofilia e internação, porque o que a gente percebe é que a Lolita não tem nadinha de inocente... no no no...
Referência dos Livros:
NABOKOV, Vladimir. Lolita. São Paulo: Abril, 1981
PERA, Pia. Diário de Lô. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

Na prateleira da livraria encontrei um livro dormindo, pintado de alaranjado, com o desenho de uma mulher na frente. Achei que se parecia comigo e o trouxe pra morar em casa.
O livro é só para mulheres, escrito pela Clarice Lispector e dispensa várias dicas sobre etiqueta, moda, moral, entre outras.
O que se percebe, obviamente, é que a autora brinca de refletir sobre a condição feminina, entupida de normas e regras... Sim, estamos falando da Clarice, um fenômeno em percepção sobre o feminino.
Posto, então, alguns dos trechos, esperando, é claro, ler alguma coisa que uma possível leitora possa compartilhar sobre.

Por favor, não use:
Cinto largo, de qualquer espécie, nem faixas, se você não tem cintura fina. Muitas mulheres pensam que eles fazem cintura. Engano. Cinto e faixa nunca foram objeto de talha num corpo feminino. São apenas enfeites para quem já tem cintura fina. Nada mais.

Cantinho alegre:
A beleza de uma casa está nos detalhes. Há donas de casa que têm o dom de criar “cantinhos”. É como se elas desdobrassem a própria personalidade e espalhassem graça. Olham uma parede vazia – e daí a pouco a imaginação começa a trabalhar, a “encher” aquele trecho inexpressivo da casa.Em breve temos o que passa a ser “um cantinho”. Essa parede alegre, por exemplo, pode ser na cozinha, no banheiro, ou no quarto. Pode-se fazer uma parede “viver”- sem usar quadros propriamente ditos. Objetos bem distrivuidos também são pictóricos. (Amei esse, by the way)

Impossível?
A maioria das coisas "impossíveis" são impossíveis apenas porque não forem tentadas. Quanta coisa você não faz apenas por timidez ou medo...Você já experimentou pintar paredes? Pois, acredite ou não, não é necessário tirar "curso" (só um curso de "confiança-em-si-mesma" ajudaria, pois confiança é o que lhe falta).A tinta, você compra. O pincel, também. A parede, você tem. E duas mãos também. Por incrível que pareça, você é dona dos instrumentos necessários. O que falta mais? Um pouco de ousadia e vontade de se divertir. (E de economizar.)

O "preto" sempre elegante:
Os vestidos pretos não caem de moda. Continuam representando o que há de chique e distinto em tailleurs, em blusas ou sais, e em toaletes noturnas. O vestido preto decotado, porém, apesar de elegantíssimo, continua privilégio das reuniões noturnas. Usá-la durante o dia, em lugares mais próprios para roupa esporte, é gafe.

By Clarice, também conhecemos váárias receitas de esfoliantes para o rosto e corpo, além de hidratações para o cabelo... óteemo!

Referencia do livro:
LISPECTOR, Clarice. Só para Mulheres: conselhos, receitas e segredos. São Paulo: Rocco, 2008.